sábado, 2 de junho de 2018

tem uma avalanche aqui dentro

estou transbordando. desmoronando. implodindo.

é uma crise, o pior e o melhor momento. são paulo começou a me expelir. me espeta, me manda embora. eu finjo que não vejo, ignoro, ela grita, me sacode, chacoalha. 

vai embora.

os sinais começaram em dezembro, e foi ali que eu comecei a chorar. sou teimosa. não gosto de mudança. insisti, e tudo continuou dando errado. minha fé sendo testada. arrumei uma briga no trabalho, fui demitida. foi bom. não senti falta, apesar de ter amado cada segundo daqueles últimos três anos. vamos pras entrevistas, uma proposta. onde você quer morar, porto ou lisboa?

chorei mais. um casamento feliz, uma enteada, um apartamento de janelão e piso de taco no bairro querido que eu morei desde o primeiro instante. as lembranças daquele 2014 maldito, quando eu escolhi perder a vida feliz que eu achava que tinha e vi o namoro de quatro anos acabar porque eu não conseguia deixar são paulo.

eu escolhi são paulo em 2014 e meu coração foi estilhaçado, eu catei os cacos e construí uma vida ainda mais feliz, porque eu podia. eu podia.

e aí sou eu quem tem que ir embora. a vida me joga essas coisas na cara, e eu fico besta de ver que a gente não escapa mesmo quando alguma coisa tem que ser. aparentemente, eu tenho que ir embora de são paulo, e não interessa a canseira, a covardia. engole o choro, arruma a mala, tem que ir.

eu só consegui aceitar depois que uma bruxa me garantiu que eu não perderia meu menino. fui em mais outra e mais outra, fico buscando orientação em previsões otimistas de futuro. tá valendo, qualquer coisa que me dê a coragem que me falta.

chegar à conclusão de que é hora de ir embora, realidade doída. o que eu abri mão pra vir, o que me custou ficar, cada escolha, cada renúncia. dez anos em agosto.

são paulo continua espetando, eu insisto. já vou, aguenta mais um pouco. me deixa descansar só um pouco. é quentinho aqui. não me manda embora ainda. chegar foi tão difícil. eu coloquei cada tijolinho, e eu tenho esse castelo tão bonito. 

afogada em caixas, em papéis de visto, na dor imensa no coração que eu sinto a cada vez que ele me diz que vai ficar tudo bem, que ele vai depois, que se eu não gostar eu volto, ele está aqui. eu sei que ele está. mas eu conheço essa avalanche. mais do que eu gostaria.

tem uma vida boa me esperando em portugal. um contrato, um bom salário, um projeto que eu sei exatamente como tocar, e que vai ser bom. mas tem todos os destroços no meio do caminho, e eu não sei mais ficar pela metade.

quarta-feira, 16 de maio de 2018

vamos lá. de novo.

Há dez anos, eu deixava o Rio de Janeiro e me mudava pra São Paulo. O terra da garota foi um exercício de descoberta da cidade grande, da liberdade com suas dores e delícias.

Mais que isso: foi um exercício de me encarar de frente, crua, pura, o melhor e o pior ali, expostos. Entender do que eu sou feita, quem eu sou, o que me move, o que me mata. Abraçar cada parte e acreditar em mim.

Eu escrevi tanto, tanto. Me rasguei, estive exposta. Reler os escritos me traz um misto de vergonha e saudade. E que bom que eles existem.

Cheguei aos 28 anos. Dez anos depois eu contabilizo 7 empregos, 2 casamentos, um milhão de planos infalíveis, algumas derrotas, alguns inúmeros porres. Estou aqui.

Minha história com São Paulo, quem diria, teria um fim.

Exatos dez anos. A partir de agora, a história recomeça. Uma nova cidade, um novo continente, uma nova garota. O que será que está guardado pra mim?